Página Inicial Facebook Twitter Instagram YouTube WebMail

Estupro Coletivo

Até que ponto vai a crueldade humana...

Postado em: 17/06/2016

Por: Mirella Madeira Araújo*

Ao longo dessas duas últimas semanas, o estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos, no Rio de Janeiro, foi o principal assunto nas manchetes brasileiras. Não bastasse o corpo da vítima ser violentado por vários homens, imagens dos atos foram registradas e divulgadas nas redes sociais pelos próprios criminosos.

Com isso, mais uma realidade “escondida” e cruel de nosso país foi revelada, pois a partir desta notícia, o assunto estupro coletivo passou a ser discutido com mais vigor, chamou a atenção das autoridades e novos casos como o que aconteceu no Rio de Janeiro foram denunciados.

Esse assunto não é discutido, mas em números se torna assustador. Segundo estimativa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão vinculado ao Governo Federal, são 500 mil casos de estupro no Brasil por ano e apenas 50 mil são denunciados. Desses, 70% das vítimas são crianças e adolescentes; 24% dos agressores são pais ou padrastos e 32%, amigos ou conhecidos. Mas então por que os outros 450 mil casos não são denunciados?

Entra em cena “A Cultura do Estupro”. Esse termo apareceu na década de 70, cunhado pelas feministas americanas e, de acordo com o Centro das Mulheres da Universidade Marshall, nos Estados Unidos, é utilizado para descrever um ambiente no qual o estupro é comum e no qual a violência sexual contra as mulheres é normalizada na mídia e na cultura popular.

A ONU Mulheres diz que é "o termo usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens. Ou seja: é quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada por meio da culpabilização da vítima".

E isso ocorre a partir do momento que a dúvida é gerada quando a vítima relata uma violência sexual, ou quando se justifica a violência por causa do passado da vítima ou de sua vida sexual. É como se fosse mais fácil acreditar em narrativas de uma suposta malícia inerente das mulheres do que lidar com o fato de que homens cometeram um estupro. 

A disseminação de termos que denigrem as mulheres, como tratativas sobre seu corpo e exploração da violência sexual, faz a cultura do estupro passar adiante a mensagem de que a mulher não é um ser humano, e sim uma coisa. "Vivemos em uma sociedade patriarcal que considera que nós mulheres somos ou sujeitos de segunda categoria ou, em alguns casos, que não somos sujeitos e podemos ser utilizadas ou destruídas", explica Izabel Solyszko, que é professora, assistente social e doutoranda em Serviço Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

“Mas ela estava de saia curta”, “mas ela estava indo para uma festa”, “mas ela não deveria andar sozinha à noite”, “mas ela estava pedindo”, “mas ela estava provocando”, "ela bebeu até cair e depois reclama", – estes são alguns exemplos de argumentos comumente usados na cultura do estupro.

A cultura do estupro é violenta sim e tem consequências sérias. Ela fere os direitos humanos, em especial os direitos humanos das mulheres.  É por conta desses tipos de reações que a maioria das vítimas não denunciam os estupros e outros tipos de violência que sofrem. A cada uma hora e meia, uma mulher morre no Brasil por causas relacionadas à violência, em sua maioria, cometidas por homens, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Nenhum argumento deve, em nenhuma circunstância, normalizar ou justificar atos bárbaros e criminosos como o estupro. Por isso, é tão importante que todas as pessoas, homens e mulheres, entrem para esse movimento pelo fim da cultura do estupro. As pessoas não são ensinadas a não estuprar, mas sim ensinadas a não serem estupradas, e é uma consequência da naturalização de atos e comportamentos machistas, sexistas e misóginos, que estimulam agressões sexuais e outras formas de violência contra as mulheres. Esses comportamentos podem ser manifestados de diversas formas, não só o ato violento, incluindo cantadas de rua, piadas sexistas, ameaças, assédio moral ou sexual, estupro e feminicídio. Na cultura do estupro, as mulheres vivem sob constante ameaça.

O fato é: a mulher não tem nenhuma relação com o comportamento agressivo e abusivo de um homem, e a cultura de estupro é assunto de todos. O estupro é uma violência, e uma violação grave dos direitos humanos que atinge mulheres desproporcionalmente. Precisamos falar sim sobre a cultura de estupro. Precisamos falar também sobre o machismo, misoginia e a cultura patriarcal. Esses assuntos estão conectados. E precisamos falar mais sobre eles. O feminismo existe porque as vozes das mulheres são tão desvalorizadas socialmente que é preciso um movimento – militante e teórico – para dar conta de articular a realidade de forma convincente, em uma sociedade propensa a não acreditar em nós.

Precisar explicar que qualquer ato sexual que acontece sem consentimento é estupro é a maior evidência que existe a cultura do estupro. É exaustivo disputar a realidade com quem não quer enxergá-la porque não é diretamente afetado por ela. Por isso, precisamos revelar que existe sim uma cultura que normaliza o estupro e a violência contra as mulheres. Falar é uma ação, denunciar o machismo é uma ação e revelar a misoginia é uma ação. Pois falemos, então....

 


*Eng. Ambiental e membro do Coletivo de Mulheres do Senge-MG 

 

Cadastre-se e receba o Senge Online, a newsletter semanal do Senge-MG.

* Nome:
* E-mail:
* Empresa:
Telefone:
Código:

NEGOCIAÇÕES COLETIVAS

Selecione o ano:

ACORDOS E CONVENÇÕES

SINDICATO DE ENGENHEIROS NO ESTADO DE MINAS GERAIS

Rua Araguari, 658 • Barro Preto • BH / MG
CEP: 30190-110
(31) 3271 7355 • (31) 3546 5151

Negociações Coletivas:
(31) 3271-7355 | E-mail: nc@sengemg.com.br
Página Inicial Facebook Twitter Instagram YouTube WebMail
2018, SENGE MG - SINDICATO DE ENGENHEIROS NO ESTADO DE MINAS GERAIS. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS